Smetak é homenageado com exposição requalificada no Solar Ferrão

Abertura Smetak e confraternização IPAC foto Lazaro e Fernando (32)

Familiares, amigos e admiradores do músico, pesquisador e professor suíço-brasileiro Anton Walter Smetak (1913–1984) prestaram uma homenagem na tarde de quinta-feira (21/12) no Centro Cultural Solar Ferrão (Pelourinho), na ocasião da reabertura da exposição ‘Smetak – o alquimista do som’, totalmente requalificada. A mostra tem 86 instrumentos-esculturas, distribuídas em quatro ambientes em um dos pavimentos do solar que é administrado pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (DIMUS/Ipac).

Entre os presentes, o filho Uibitu Smetak, o neto Ícaro Smetak e, entre os principais admiradores e amigos de Smetak, o músico Tuzé de Abreu fizeram uma performance musical em homenagem ao artista. Na sequência, com mediação especial da filha, Bárbara Smetak, todos seguiram para a visitação às obras. “Este trabalho só foi possível graças a um grupo de pessoas que entendem a importância do meu pai. É resultado de muita dedicação, carinho e respeito pelo trabalho dele. Agradeço a todos os envolvidos. A exposição está num espaço amplo e muito bem feita. Os smetakianos com certeza vão gostar”, disse Bárbara Smetak.

“Esta mostra é importante porque guarda uma parte da visão de vanguarda da Bahia na década de 70. Aqui podemos revisitar uma parte daquele período da Tropicália que ainda se reflete nos dias de hoje”, declarou Ícaro Smetak, neto do artista que faz doutorado em Música na UFBA. Já o filho caçula de Smetak, Uibitu Smetak, declarou que a exposição é importante porque deixa viva a herança deixada pelo artista. “Esta iniciativa é fundamental para que meu pai não seja esquecido. E, em tempos de crise, é uma prova de que é possível remar contra a maré e tomar iniciativas como esta”, completou o violinista.

Para o músico Tuzé de Abreu (que trabalhou ao lado do artista), Smetak foi além de tudo que era diferente da sua época. “É um artista importante que apontou para um caminho diferente de tudo aquilo que já foi feito, no que diz respeito a instrumentos musicais. Apesar de Smetak ser suíço, suas obras foram feitas na Bahia e isso é nosso patrimônio”, declarou o músico. “Especificamente na Bahia, Smetak foi professor de universidade onde desenvolveu instrumentos e obras visuais importantíssimas. Suas obras tem um significado religioso e espiritual que vai além dos limites tradicionais da música”, disse o músico Guilherme Gentil. Entre os convidados, destaque também para o músico Vladimir Bonfim e o arquiteto Carlos Quirino.

Segundo o diretor geral do Ipac, João Carlos Oliveira a reabertura da coleção é uma justa homenagem a um dos mais importantes acervos sob responsabilidade do Estado. “Temos que ter inteligência para saber em que momento estamos e sabedoria para trabalhar da forma correta. Esta reabertura da coleção de Smetak é resultado desse processo de sabedoria e está de acordo com a construção de um Ipac maior e fortalecido”, disse.

O acervo completo de instrumentos de Smetak, composto de 150 peças e de propriedade da sua família, está sob responsabilidade do Estado. “A expografia atual privilegia a natureza lúdica da coleção. Essa reabertura devolve aos estudiosos e admiradores de Smetak um espaço para deleite e inspiração. Pelo que podemos perceber de músicos e especialistas, a obra de Smetak continua única e sem paralelo no Brasil, mostrando que o seu legado permanece vivo e instigando a curiosidade de artistas, estudantes e pesquisadores, por isso, também, a importância dessa mostra no Ferrão”, explica a coordenadora do Solar Ferrão, Graça Lobo.

Segundo a coordenadora, dentre as melhorias, está a readequação dos ambientes, melhor projeto de iluminação e a nova sonorização-ambiente com músicas de autoria de Smetak. “Transferimos ainda o local para exibição do videodocumentário sobre a vida e obra do artista, para atender um número maior de assistentes, e teremos duas réplicas de suas obras que poderão ser manuseadas pelos visitantes como experiência sonoro-estética”, completa Graça.

Sala de Smetak no Ferrão ft. Lazaro Menezes (6)

O acervo de Smetak no Solar Ferrão integra o conjunto de obras que foi restaurado e exposto nos museus de arte moderna da Bahia (2007) e de São Paulo (2008), sendo este apenas um recorte da ampla trajetória desse músico. Smetak nasceu em 1913, em Zurique, Suíca, filho de imigrantes tchecos, tendo como primeiro instrutor musical, seu pai, um renomado virtuose da cítara tcheca. Estudou no Mozarteum de Salzburgo, na Áustria, formando-se violoncelista e concertista pelo Conservatório de Viena, junto a Pablo Casals, em 1934. Com a iminência da 2ª Guerra Mundial, vai para o Brasil em 1937, inicialmente para Porto Alegre.

Em 1957, é convidado pelo compositor alemão Hans Joachim Koellheutter para Salvador, onde integra os Seminários Livres de Música, no movimento de excelência artística que se processava na Universidade da Bahia sob comando do reitor Edgar Santos. Na Bahia, Smetak inicia pesquisas microtonais inspiradas pela teosofia e cria cerca de 150 instrumentos-esculturas. A partir de 1969, sua oficina de experimentação sonora é frequentada por importantes artistas que marcaram a Tropicália e outros movimentos: Gilberto Gil, Rogério Duarte, Tom Zé, Gereba, Tuzé de Abreu, Djalma Correia e Marco Antônio Guimarães (fundador do grupo Uakti), dentre outros. Gravou ainda dois discos, escreveu três peças de teatro e mais de 30 livros.

O Solar – Além da sua importância arquitetônico-histórica, sendo um dos prédios mais importantes do Centro Histórico de Salvador, o Solar Ferrão abriga importantes coleções de arte e o Museu Abelardo Rodrigues de Arte Sacra. As coleções de Arte Popular, Claudio Masella de Arte Africana e Instrumentos Tradicionais Emília Biancardi compõem as restantes. “A coleção de Arte Popular será a próxima a ser requalificada e reaberta ainda neste verão 2018, enquanto a de Instrumentos Tradicionais se manteve em funcionamento permanente”, diz Graça Lobo.

Já o Museu Abelardo Rodrigues será reaberto ainda no primeiro semestre de 2018. “A nossa meta é conseguir expor o máximo de obras dessa coleção que é considerada uma das mais importantes de arte sacra do país e, por isso, deveremos ampliar para seis salas, hoje restrita apenas a três”, relata a museóloga. Além do Centro Cultural Solar Ferrão, a DIMUS é responsável pelos museus Tempostal e o Udo Knoff de Azulejaria e Cerâmica, no Pelourinho, o Palácio da Aclamação e o Passeio Público, no Campo Grande, o Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, em Cachoeira, e o Parque Histórico Castro Alves, em Cabaceiras do Paraguaçu. Através de um convênio com o Convento de Nossa Senhora dos Humildes, a DIMUS também responde pelo Museu do Recolhimento dos Humildes que funciona nessa edificação de 200 anos localizada às margens do Rio Subaé, em Santo Amaro, Recôncavo baiano.

SERVIÇO

O quê: exposição ‘Smetak – o alquimista do som’

Onde: Centro Cultural Solar Ferrão – Rua Gregório de Mattos, 45, Pelourinho – Salvador (BA)

Tel. 71 3116-6743

Visitação: terça a sábado, das 13h às 17h

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